EDITORIAL

Um mandato literalmente perdido


O Brasil já estava na UTI quando os candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff se digladiavam para assumirem a Presidência da República, cada um prometendo mais do que o outro fazer deste país o mais desenvolvido do mundo. A presidente, apenas com a continuidade do céu de brigadeiro em que se encontrava o país em suas mãos; o outro, após a permanência dela por dois mandatos.
Dilma Rousseff levou a melhor. O primeiro poste de Lula continuaria fincado. Como profetizara, fez o diabo e se reelegeu. Nem tomou posse direito e começaram as denúncias de abusos e a corrida pelo impeachment. Caiu. Mas, antes, o país ficou parado por quase dois anos nesse processo para se livrar de uma presidenta, que entrará para a história pela incapacidade de articular uma frase coerente e racional com mais de três palavras.
Enquanto iam crescendo as chances de cair, os seus fiéis aliados de outrora iam se afastando. O mais fervoroso articulador de sua queda, por motivos óbvios, foi o seu vice-presidente, de cuja fidelidade fora antes muito enaltecida por ela mesma.
Alçado constitucionalmente presidente, Michel Temer não respirou. Vice de um poste não poderia ser lá essas coisas. Primeiro, alguns dos seus ministros e auxiliares começaram a cair como pedras de dominó. Tornaram-se frequentes as “relotações” da Presidência da República para a Penitenciária da Papuda.
Uma denúncia atrás da outra, por óbvio não demoraria chegar ao próprio Presidente.  O empresário Joesley Batista jogou a pá de cal, com a gravação de como se preside a República brasileira.
Daí em diante não se falou mais de outra coisa. O presidente da República conseguiu o ineditismo de, no exercício do mandato, ser denunciado por crime comum pela Procuradoria Geral da República.
Para se defender, o presidente foi à “feira” em Brasília. Já eram conhecidas a da madrugada em São Paulo e do Saara no Rio de Janeiro. Nelas, os produtos são de segunda, na de Brasília, talvez de terceira. Lá se vendem e se compram deputados federais, que já são pagos pela população por um trabalho que não realizam.
O pagamento vem em forma de emendas parlamentares “impositivas”; pelos malfadados cargos comissionados para apaniguados e outros meios similares.
Por enquanto, as grandes realizações presidenciais foram tapar a visão das entradas dos palácios com jarros enormes de plantas e colocar misturador de voz nos ambientes internos.
Afinal não se pode saber quem entra nos palácios presidenciais na alta madrugada e, muito menos, o que conversam. Não por acaso, entram empresários e saem bandidos.
Explica-se: no início das justificativas da conversa com Joesley Batista se dizia que o presidente recebia todo mundo na Presidência, sem agenda, sem hora marcada. Estava de portas abertas. Não entrava quem não queria. Depois da gravação, a “feira” de Brasília percebeu que o presidente recebera um “bandido” e não um empresário.
E mais dois anos se vão sem nenhuma obra relevante. Existe apenas uma reiterada tentativa de denegrir a imagem da Polícia Federal, da Justiça Federal e do Ministério Público Federal, instituições que ainda trazem alento aos brasileiros pelos relevantes serviços prestados à Nação, especialmente contra essa casta que pretende continuar dilapidando o país impunemente.

Pedro Cardoso da Costa – Interlagos/SP
    Bacharel em direito

DIAGNOSTICANDO O BRASIL


Qual seria a análise da saúde do Brasil em tempos onde sua imunidade está abalada por doses altíssimas de interesses políticos que divergem com o que o país espera de fato?

A simbologia de uma justiça que é cega se torna evidente nos atos que estamos vivenciando e que muda drasticamente o rumo do Brasil. A luz está sendo ofuscada por aqueles que determinam o que deve ser justo ou não.

A justiça se encontra com os olhos vedados para a vontade de uma nação ou ciscos foram injetados a fim de que uma inflamação obstrua a visão da verdade. A justiça no Brasil está precisando de um colírio moral.

A dor gerada na população quando assiste a um processo de desmoralização de suas instituições, que tem como papel principal a transparência de seus atos, fica mais forte quando se sabe que acordos são feitos em surdina, no breu que esconde as verdadeiras intenções.

Estamos tropeçando e se machucando nessa escuridão.
Dinheiro público usado de maneira vergonhosa, patrocinando um processo que continua abrindo feridas em uma democracia fragilizada pelos vermes que contaminam e se proliferam no mofo em que se transformou a política no Brasil.

Pedaços de carne de luxo compram políticos fazendo um povo inteiro se engasgar.
O país sangra com tantos golpes que vem sofrendo, mas não vemos esforços para estancar e se infecta a cada denúncia de corrupção.

Infelizmente ainda não se inventou uma vacina para o maior mal da política que atinge o Brasil.

Sim, o país está doente e o melhor remédio é a mudança de atitudes diante de tantos exemplos de quem deveria proporcionar a cura.


Ana Lucia Zanini

Reg. Jornalista 0061028SP



Os BRICS e a reunião do G20: heterogeneidade e divergências

João Paulo Nicolini Gabriel é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (PUC-SP, UNESP e UNICAMP).


Marcel Artioli é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (PUC-SP, UNESP e UNICAMP).


O recente encontro, sediado em Hamburgo, do G20 – grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia – se apresentou com o lema “Construindo um Mundo Interconectado”. Nada mais sugestivo para enunciar o momento paradoxal vivido pelos países participantes dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Se por um lado os emergentes ocuparam espaço relevante na conduta mais ou menos coordenada em resposta às crises mundiais; por outro, as discrepâncias apresentadas nas situações internas e nos interesses internacionais dos cinco membros parecem distanciar movimentos de confluência no arranjo. 


    A conjuntura atual confirma o pressuposto de que a centralidade sobre as decisões internacionais deveria ser expandida do âmbito do restrito G-7 (grupo formado por países desenvolvidos) para um ambiente em que se incluíssem também as potências emergentes. O momento pelo qual o G-20 conquistou maior espaço na formulação de agendas internacionais, com a primeira reunião entre seus chefes de governo em 2008, é o mesmo pelo qual os BRICS alinharam posicionamentos a fim de reordenar os principais mecanismos internacionais. As condições econômicas positivas dos emergentes no imediato pós-crise de 2008, demonstradas por taxas de crescimento acima da média internacional, deram oportunidades para mudanças institucionais nas estruturas obsoletas do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo. Diante deste quadro, estava formada a percepção de que os BRICS detinham uma potencial capacidade de convergência nas decisões de governança global.


    Certamente, pode-se argumentar que, passados quase dez anos, os BRICS ainda fomentam a continuidade de tratativas intuindo posições semelhantes nos debates internacionais através de cúpulas anuais e encontros informais realizados tradicionalmente às margens do G-20. Contudo, embora comprometidos em argumentos e nos comunicados oficiais em relação a interesses comuns nos temas econômicos do comércio e das atividades financeiras, bem como sobre mudanças climáticas, a multiplicidade dos cenários internos de cada um dos BRICS resulta numa visível discrepância de interesses, o que invariavelmente dificulta que se mantenha a ambiciosa agenda conjunta observada na década passada.


    Em meio a tantos eventos disruptivos no mundo, como a postura desestabilizadora da política “America First” de Donald Trump, os testes de mísseis na Coreia do Norte, o conflito sírio no Oriente Médio e a questão do Qatar, ninguém duvida da importância em ter China, Rússia e, muitas vezes, a Índia nas mesas de negociação da atual (des)ordem mundial. Em contrapartida, África do Sul e, principalmente, o Brasil assistem ao momentâneo enfraquecimento de suas relevâncias nas tratativas internacionais.  Assim como o líder sul-africano, o presidente Michel Temer chegou a Hamburgo com uma agenda tímida e com o pensamento voltado para os desdobramentos das investigações que afetam diretamente seu governo. Temer levou consigo a missão de mostrar ao mundo que seu governo está vivo e que é capaz de aprovar as reformas prometidas. Mas, da mesma maneira que a atuação nos últimos anos de Dilma Rousseff, as proporções e ambições que o Brasil apresenta na atual ordem mundial não têm sido traduzidas em seu engajamento internacional.


      Do Plano de Ação de Nova Délhi de 2012, que formalizou a ação conjunta dos BRICS dentro do G-20, até o presente, pode-se dizer que a heterogeneidade entre esses países se fez maior do que os pontos de convergência. A reunião de Hamburgo comprova essa afirmação na medida em que as divergências apresentadas incentivam a sobreposição de influências. As agendas russa e chinesa no G-20 de 2017 se desenrolam de percepções e interesses nacionais, transvestidos de roupagem multilateral. Além disso, nesta cúpula a ideia de BRICS, como um “bloco”, já se fazia enfraquecida, devido à desavença fronteiriça envolvendo China e Índia na região do Sikkim. 


    Do ponto de vista geoeconômico, os alinhamentos entre os BRICS diminuíram. Além da discrepância interna, as capacidades de ação externa que cada um desses países desenvolveu recentemente são variadas. Contudo, isso não significa que os BRICS perderam relevância. As oportunidades que esse arranjo propicia para seus participantes e principalmente para a superação dos desafios globais são imensas, particularmente devido à construção institucional do Novo Banco de Desenvolvimento. Cabe ao Brasil retomar um posicionamento ativo nas negociações internacionais ao passo que supere suas dificuldades internas. A consolidação de sua candidatura à OCDE é vista pelo governo brasileiro como um passo importante. 


    Em Hamburgo, os BRICS se apresentaram mais afastados, buscando seus próprios interesses. A proposta de reformulação da governança global do início do século XXI está longe de se solidificar. Seus diferentes cenários internos e as novas interações advindas de um contexto de incertezas e possíveis redefinições geopolíticas resultou no protagonismo de China, Rússia e Índia, e, também, na timidez sul-africana e brasileira. Sem a superação das tensões atuais, a próxima cúpula dos BRICS, que ocorrerá em setembro de 2017 na China, está inclinada a ser uma repetição da anterior – mais divergências do que convergências.  07/07/2017




HEROIS

Escolhemos nossos heróis desde muito cedo.
Ter superpoderes era uma ideia maravilhosa!
Possuir o poder para mudar as coisas erradas estava ao nosso alcance... Pelo menos ao alcance de nossa imaginação!

Crescemos e descobrimos que nossos heróis não fazem parte deste mundo.  Será que moram em Marte?
Temos a tendência de criarmos heróis, seres de carne e osso, nos quais depositamos nossa confiança, com a certeza de que, ao sinal de qualquer perigo, estes, salvarão a nação!

Assim tem ocorrido no cenário político do Brasil.
Gostamos de discursos inflamados.
Gostamos de ouvir promessas, pois o que não é possível pode ser possível de maneira escusa.

Com quantos heróis o brasileiro já se decepcionou?
A criptonita por várias vezes atingiu profundamente nossos anseios, nossos sonhos. Hoje mais do que nunca, precisamos de um antídoto.
Estamos sentindo os efeitos de tais superpoderes.

Estamos tentando sair da teia de um assistencialismo disfarçado de boas intenções. Parece que o mocinho é o grande vilão.
A cidade não está totalmente livre do mal, pois ainda há os monstros que querem destruí-la, mas ela é forte e se reerguerá.

Ana Lucia Zanini
Reg. MTB 0061028SP