Vai faltar salada? Crise da água já eleva os gastos na feira



Os efeitos da falta d'água já começam a chegar à mesa dos paulistas, e a primeira atingida é a salada. Com pouca chuva e dificuldades de irrigação, a ordem é economizar. E, com menos água, a produção cai e o preço sobe.


Na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), o clima é de apreensão: se a crise se agravar, do futuro ninguém sabe. “Não sei no que vai dar isso aqui. Os governantes estão esperando a chuva cair do céu. Mas, se continuar seco, a produção vai cair muito. Se bem que o consumo também vai diminuir, porque ninguém vai ter água para lavar verdura, né?”, diz Marcelo Rodrigues Gonçalves, que viu sua produção cair 20% nos últimos meses.

“Vai ser muito desastroso. O investimento é alto. Quem souber que não vai conseguir produzir vai parar de plantar mesmo. E aí o preço sobe. É a lei da oferta e da procura”, afirma o produtor de hortaliças Marildo Pontes Soares.

Os preços, na verdade, já subiram. Na feira da Alameda Fernão Cardim, no Jardim Paulista (zona oeste da capital), o brócolis que custava R$ 4 há 15 dias saía por R$ 7 na última quarta-feira; o pé de alface americana tinha subido de R$ 3 para R$ 4; o maço de couve manteiga, de R$ 4 para R$ 5. Tudo estava mais caro. “A quantidade também diminuiu. Antes vinha 30 caixas, agora vêm 10, 15”, conta o vendedor Nelson do Amaral.

De acordo com o economista André Chagas, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), dentre os alimentos mais sensíveis, as verduras de fato sofrem mais com a crise. “Já esperávamos um aumento nos preços desses produtos nesta época do ano, mas claramente já há um reflexo dos problemas mais sérios da crise hídrica”, afirma Chagas. Segundo o IPC, a alface ficou 16,7% mais cara em janeiro, e a expectativa era de que a alta não ultrapassasse os 5% no verão, quando as folhas precisam conviver com altas temperaturas, tempestades e até granizo.

O Índice Ceagesp, por sua vez, que mede a variação de preços de uma cesta de 150 produtos no atacado, aponta que as verduras ficaram 16,5% mais caras em janeiro, com destaque para brócolis (44,8%), repolho (39,1%), couve (37,1%) e alface (35%). De acordo com Flávio Godas, economista da Ceagesp, apesar de o aumento estar dentro da normalidade para o período, a tendência é que os preços subam ainda mais por conta da escassez de água.

Se a estiagem persistir e a crise se agravar, os produtores terão restrições no uso de água para irrigação. Essa é uma medida que já está sendo estudada pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e deverá afetar, inicialmente, os produtores localizados nas bacias Alto Tietê – que concentra a maior parte da produção de verduras do Estado e é uma das mais afetadas pela seca – e PJC (Piracicaba, Capivari e Jundiaí). Para se ter ideia, o reservatório Alto Tietê operava com 11% de sua capacidade ontem, só ficando atrás do Sistema Cantareira (5,2%).

Frutas na berlinda
No Mercadão Municipal de São Paulo, os proprietários de bancas de frutas dizem que ainda não foram afetados pela crise, mas preveem mudanças em breve. “As frutas vêm de longe, da Bahia, de Pernambuco, do interior paulista, lugares que por enquanto têm água”, afirma Francisco Pereira da Cruz, dono da banca Parpinelli.

Para quem planta em Minas Gerais, no entanto, o cenário é outro. Produtor de umbu, Hudson de Almeida diz que mesmo essa fruta nativa do semiárido brasileiro tem sofrido com a estiagem que castiga a região de Januária (MG). “A seca é inclemente, não perdoa ninguém. A produção caiu no mínimo 50%. O preço ainda não subiu, mas logo vão proibir de usar água para irrigação, para priorizar o consumo humano, e aí vamos ter que fazer milagre. Mas a gente persiste, não desiste”, diz ele no intervalo de uma negociação na Ceagesp.